A pintura da paisagem para o golpe

Por Tereza Cruvinel, em seu blog:

Há alguns dias, o Brasil começou a parecer um país agradável nos telejornais, especialmente no Jornal Nacional, com notícias amenas e apresentadores serenos. Os jornais deixaram de falar de uma paisagem devastada e começaram a dar notícias boas: “Cresce o otimismo com a economia”, anunciou o Datafolha divulgando uma pesquisa pouco convincente, tanto em aspectos políticos como econômicos. Agora, 50% querem que Temer fique, contra 32% que preferem a volta de Dilma. Em abril o instituto apurou que a maioria não queria Dilma nem Temer. 61% aprovavam o impeachment dela, e 58% o dele. Alguma fada deve estar protegendo Temer porque nada mudou no cenário que justifique tal guinada do sentimento popular.

Nesta terça-feira, por sinal, ele deu um prazo de 20 dias para que seus ministros da área econômica apresentem medidas para estimular o crescimento. Tal prazo termina quando? Em agosto, ora, bolas. E tem a Olimpíada, que absorverá muita luz nas próximas semanas, deixando em segundo plano os problemas reais. Não há dúvida: começou a ser pintado, com cores suaves, um quadro de otimismo para favorecer a consumação final do golpe revestido de impeachment em agosto. Uma pintura em aquarela, com muita cor borrada e pouca nitidez das formas.

Na política, o governo emplacou Rodrigo Maia na presidência da Câmara para tocar sua agenda conservadora, começando pela PEC que aprisiona o crescimento do gasto publico no índice da inflação e pela reforma previdenciária. Da agenda de agosto Temer tratará esta noite num jantar com Rodrigo e Renan Calheiros, presidente do Senado. Quando o Congresso reabrir, no início de agosto, Meirelles e sua equipe estarão apresentando medidas pró-crescimento. Se elas fossem de fato possíveis e viáveis, já estariam sendo aplicadas, não estaria o governo perdendo um precioso tempo. Não importa o recheio do bolo, importa que tenha um glacê vistoso, que agora começará a ser preparado com muito açúcar.

Até o FMI apareceu neste início de semana informando que a recessão pode acabar sendo alguns décimos menor este ano, em relação ao que previra, e que em 2017 haverá crescimento, ainda que seja apenas de 0,5%. Mas nada como o Datafolha, ao informar que os otimistas com a economia são 38%, contra 30% de pessimistas. E numa contradição com os 60% que esperam aumento da inflação e do desemprego. Mas o que importa é a manchete, e ela falou de aumento do otimismo econômico.

Na linha do otimismo, apesar da inflação, do desemprego e do paradeira nos negócios, fomos também informados de que:

– A Caixa Econômica Federal voltará a financiar imóveis para a classe média.

– Temer pediu à equipe econômica que reduza os juros.

– As exportações podem ter um superávit de US$ 46,934 bilhões na balança comercial deste ano.

– Segundo a CNI, o Índice de Confiança do Empresário Industrial teve a terceira alta seguida em julho, passando de 45,7 pontos para 47,3.

– Segundo o Credit Default Swap (CDS), com a posse de Temer o risco Brasil caiu significativamente, passado de 495,09 pontos em dezembro passado para 294,35 neste mês de julho.

Muito mais pode ser encontrado numa garimpagem do noticiário econômico. Enquanto isso os congressistas aproveitam as férias e voltarão para trabalhar três dias por semana em agosto. No Senado, depois deste banho de cheiro e otimismo, será mais fácil confirmar a condenação de Dilma. A democracia? Seria problema se houvesse milhões nas ruas cobrando respeito ao voto, como na Turquia, mas aqui tudo segue na santa paz dos trópicos. O golpe não foi feito com tanques, o que gera indignação e revolta, mas com leis. Leis retorcidas e interpretações convenientes, mas com leis. E isso gera resignação e não revolta.

Fonte: Altamiro Borges: A pintura da paisagem para o golpe

Escola Sem Partido ou Como criar uma geração de zumbis

Educar por educar, passando apenas dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e o cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, sem considerar a realidade à sua volta, sem ajudá-lo a construir um senso crítico e questionador sobre o poder, seja ele vindo de tradições, corporações, religiões ou governos, é o mesmo que mostrar a uma engrenagem o seu lugar na máquina. A um tijolo, em qual parte do muro deve permanecer.

Uma das principais funções da escola deveria ser “produzir” pessoas pensantes e contestadoras que podem – no limite – colocar em risco a própria sociedade do jeito que a conhecemos, fazendo ruir a estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está.

Em outras palavras, educar pode significar libertar ou enquadrar. Pode ajudar às pessoas a descobrirem como quebrar suas próprias correntes ou ser o pior cativeiro possível, fazendo com que vítimas se tornem cães de guarda de seus agressores.

Que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de educação precisamos ter? Que tipo de educação um movimento como o “Escola Sem Partido”, e tantos outras propostas de fundamentalistas, quer implantar?

Veja também:
Escola Sem Partido: Doutrinação comunista, Coelho da Páscoa e Papai Noel
Havana Connection: “Qual o partido por trás da Escola Sem Partido?”

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. Ganha quem aposta que o resultado de toda essa confusão será a contenção dos pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos.

Pois, como bem disse Paulo Freire, todos somos orientados por uma base ideológica. A discussão é se a nossa é includente ou excludente. Mas se as pessoas que mais precisariam fazer essa reflexão chamam Paulo Freire de “lixo”, será uma grande caminhada até que percebam o tamanho da corrente que prende seus pés.

As ideologias mais violentas, inclusive, são as que se vendem com um discurso de que não são ideologias. Que se mostram como a saída “lógica” e “natural”, sendo que não há caminhos lógicos e naturais em se tratando de humanidade. O que existe é debate. Muito debate.

Pois quando pede-se que o professor ou a escolas se omite ou é proibido de analisar o mundo sobre um ou mais pontos de vista, dizendo que isso só serve para doutrinação, a ideologia hegemônica na sociedade ocupa silenciosamente o espaço deixado. E, na prática, ensina aos jovens que tudo está bem quando, na verdade, ele desesperadoramente sente o contrário.

Em algumas sociedades, pessoas que protestam, discutem, debatem, discordam, mudam são úteis para fazer um país crescer. Por aqui, são vistas com desconfiança, chamadas de mal-educadas e vagabundas e acusadas de serem resultado de uma educação que não deu certo.

Para muita gente aqui no Brasil, bom mesmo é quando, da fornada, sai um outro tijolo para o muro, igualzinho ao anterior. E ao anterior. E ao anterior…

Com tanta coisa importante para discutir, com tanta ação urgente para tomar, nos pegamos imobilizados numa falsa questão, sustentada por argumentos frágeis e para lá de questionáveis.

E o futuro, aquele que nunca chega, vai ficando a cada dia mais distante.

Fonte: Escola Sem Partido ou Como criar uma geração de zumbis

A dobradinha Globo, governo e Lava Jato para consolidar o golpe

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Não subestimemos o golpe no Brasil. Ele é sofisticado. Aliás, devíamos ter orgulho disso. Países atrasados como a Turquia ainda sofrem golpes militares, conceitualmente toscos e por isso mesmo relativamente fáceis de serem vencidos. Nôs, não. Nós somos um país avançado!Não creio que o governo da Turquia tenha armado um golpe contra si mesmo, porque neste caso seria absurdo ele reprimir os golpistas que, em tese, seriam seus aliados. Mas ele pode ter estimulado os golpistas a tentarem a sorte, já imaginando a oportunidade de dar a volta por cima e se livrar de seus inimigos.

Por outro lado, como ele poderia prever que a população iria às ruas defendê-lo, e que mesmo os partidos de oposição cerrariam fileiras a seu lado, contra o golpe?

Enfim, o golpe na Turquia usou técnicas ultrapassadas. Um golpe moderno precisa seguir o modelo brasileiro: ser construído paulatinamente, para que se consolide de maneira hegemônica, antes, na opinião pública.

O golpe no Brasil simboliza uma nova era de golpes no mundo. Governantes que não forem palatáveis ao grande capital, serão destituídos por qualquer conspiraçãozinha vagabunda que consigam apoio dos parlamentos. E o apoio dos parlamentos, consegue-se com relativa facilidade quando se constrói uma boa campanha midiática.

Os parlamentares, à diferença de um presidente, não tem força individual para enfrentar a mídia.

Entretanto, o golpe no Brasil, mesmo sofisticado, tem seus defeitos e contradições. Ele precisa da mídia, por exemplo. Durante os primeiros dias de governo, a imprensa até tentou disfarçar, fazendo algumas críticas, derrubando alguns ministros. Era uma espécie de lua-de-mel às avessas.

Com Temer, a lua-de-mel não veio nos primeiros dias de governo e sim depois. De umas semanas para cá, temos testemunhado uma guinada impressionante da imprensa nacional.

A crise econômica acabou. Os jornalões agora estampam manchetes positivas e os colunistas econômicos destacam o retorno das boas expectativas.

A Lava Jato parece ter ameaçado o governo, nos primeiros dias, apenas porque ela notou que este alimentava a ilusão de impor um pouco de ordem ao golpismo judicial. Foi uma escaramuça entre golpistas. Já passou.

É um golpe sofisticado, mas depois de dois anos de Lava Jato, tudo se tornou bem previsível. Para amarrar a narrativa, as delações que envolvem tucanos são vazadas antes mesmo de acontecerem, num contexto bastante controlado. Assim a imprensa dá algumas manchetes: “fulano delatará Serra”, “sicrano delatará Aloysio Nunes”, “beltrano delatará Alckmin”. É divertido ver a imprensa sair do futuro do pretérito, quando abusava dos “fulano teria dito”, “sicrano teria relatado que viu um petista roubando uma velhinha cega”, para o uso do verbo no futuro. Com certeza, é uma evolução! Ela está mais confiante!

As delações da Lava Jato são como vírus contagiosos, que devem ser manipulados por uma equipe especializada, usando trajes especiais.

Hoje a equipe da Lava Jato comunicou à imprensa que tentará indiciar Lula por tentativa de obstrução da Lava Jato. A obsessão por Lula é algo impressionante. A Lava Jato vai atrás do sítio de Lula, fica durante semanas vazando intimidades do ex-presidente, pratica todo o tipo de brutalidade contra ele e sua família, expondo telefonemas íntimos na grande imprensa, e quando o presidente tenta se defender, a Lava Jato tenta indiciá-lo por “obstrução de justiça”!

Que justiça, é importante se perguntar?

Não é preciso ser vidente que as próximas semanas serão decisivas para Michel Temer.

A Lava Jato deve voltar a produzir conteúdo pró-golpe.

A tortura imposta à Marcelo Odebrecht, há mais de um ano preso na masmorra de Sergio Moro, e ao casal Santana (João e Mônica), deve ter sido intensificada para que possa subsidiar um ataque final antes da votação do impeachment.

Gilmar Mendes também deve estar se movimentando, para oferecer também alguma carne às feras.

A Globo, enquanto isso, faz dobradinha com o ministro da Justiça sobre a prisão de “suspeito de terrorismo”, em que meia dúzia de paspalhões cujo único crime foi acessar sites do Estado Islâmico, são oferecidos à mídia como bandidos perigosos.

Pior: o ministro da Justiça cita a deportação do professor de física da UFRJ e cientista Adlène Hicheur, um caso ridículo de falsa acusação, para afirmar à imprensa:

“Com a prisão deles e a deportação [do professor] nós afastamos os dois únicos focos, que já estavam sendo rastreados, de possibilidade ainda que remota de terrorismo das Olimpíadas”

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Ora, estamos diante de mais um factoide desonesto, uma dobradinha óbvia entre imprensa e governo para abafar qualquer debate político sobre as atrocidades em curso no Congresso contra direitos sociais e trabalhistas, por iniciativa do próprio Executivo

Em poucos meses, as violências contra indígenas e movimentos sociais cresceu de maneira apavorante, como sempre acontece após golpes de Estado como esse.

As perspectivas ambientais, por sua vez, são preocupantes, porque o governo tem substituído pessoal técnico, que milita na área há muitos anos, por velhas raposas da política partidária.

Tudo que a direita acusa a esquerda de fazer, como farra fiscal e aparelhamento, ela o faz numa magnitude inimaginável, até porque a esquerda, por ser estranha ao status quo, precisa estar sempre provando que é comportada. A direita não. A direita não precisa provar nada.

Daí que o governo Temer tem praticado uma farra de gastos inacreditável, e isso sem oferecer nenhum investimento em educação, em saúde, em infra-estrutura. A farra é toda para pagar a conta do golpe. O exemplo mais chocante é o reajuste de 41% para o judiciário, o setor do Estado cujos salários e benefícios já são completamente desproporcionais em relação ao resto do país e do próprio serviço público.

Compare a renda de um juiz, um desembargador, com a de um professor universitário. Olhe que eu disse universitário, porque se eu mencionasse um professor de ensino básico ou médio, a diferença seria ainda mais brutal.

Esse tipo de disparate não é debatido na imprensa, nem é mencionado pelo governo, de modo que o debate político parece ter sido sequestrado pelo consórcio golpista.

Não subestimemos também a hegemonia que eles construíram na opinião pública. Claro, eles se beneficiam de uma situação de estabilidade social que eles não ajudaram a criar. As grandes cidadelas dos recursos públicos, que são as pensões previdenciárias, os gastos com saúde e educação, já começaram a ser saqueadas, mas talvez seja preciso alguns meses até que a população desperte para as violências de que está sendo vítima.

Fonte: A dobradinha Globo, governo e Lava Jato para consolidar o golpe

62% dos brasileiros querem renúncia de Temer e novas eleições; dados distorcidos pela Folha merecem mais que “correção de costume”, diz entidade de Washington

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O quadro acima, que a Folha omitiu completamente, tornou a divulgação da pesquisa Datafolha muito mais falaciosa do que se acreditava inicialmente: enquanto o diário cravou na primeira página que 50% dos brasileiros preferiam Temer a Dilma — baseado em números enganosos — escondeu o dado real de que 62% dos entrevistados querem novas eleições já

Graves erros em reportagem do Datafolha sobre pesquisa de opinião devem ser corrigidos pela mídia internacional e brasileira, diz Co-Diretor do CEPR

Do site do Center for Economic and Policy Research, 21 de julho de 2016

Washington, D.C. — Um relatório sobre dados de pesquisa de opinião publicado no sábado pela Folha de São Paulo, jornal de maior circulação no Brasil, continha erros tão “grandes e de fundamental importância para a atual crise política que exigem muito mais do que a correção de costume,” afirmou hoje Mark Weisbrot, Co-Diretor do CEPR.

“Pesquisas ruins acontecem com bastante frequência, mas esses erros, tanto de pesquisa quanto de reportagem, são de uma magnitude completamente diferente “, disse Weisbrot.

Como destacado pelo site The Intercept ontem, a Folha de São Paulo havia relatado que, de acordo com uma pesquisa realizada pela empresa Datafolha, 50% dos brasileiros queriam que o presidente interino Michel Temer ficasse no cargo até 2018; 32% queriam que a presidenta eleita Dilma Rousseff terminasse seu mandato; 4% não queriam nenhum dos dois; e apenas 3% queriam novas eleições.

No entanto, após a liberação dos dados da pesquisa, descobriu-se que não foi dada aos entrevistados a escolha entre estas quatro opções. Em vez disso, eles foram convidados a escolher entre apenas duas possibilidades: ou Temer, ou Dilma, servindo o restante do mandato em curso, que vai até o final de 2018.

Os 4% que não escolheram nenhum dos dois, e os 3% que optaram por novas eleições, consistiam apenas daqueles entrevistados que não responderam às perguntas.

“Portanto, é falso e grosseiramente enganoso reportar, como fez a Folha de São Paulo e muitas outras agências de notícias, que esta pesquisa constata que metade do país está a favor do presidente interino, Michel Temer, permanecer no cargo até 2018″, disse Weisbrot.

“Mais importante, podem haver, potencialmente, enormes consequências se essa reportagem enganosa não for corrigida: ela daria aos senadores brasileiros, que vão decidir o destino de Dilma em cerca de três semanas, cobertura política para condenar Dilma e removê-la do cargo, e para permitir que Temer governe até o final de 2018. ”

Como observado pelos jornalistas Glenn Greenwald e Erik Dau, do The Intercept, uma pesquisa anterior, realizada em 25 de abril, “apontou que 62% [dos entrevistados] queriam que tanto Dilma quanto Temer deixassem o cargo e, em seguida, que novas eleições fossem realizadas; 25% queriam que Dilma permanecesse no cargo e concluísse seu mandato; e apenas 8% eram a favor do que aconteceu até agora: Dilma sendo removida e Temer permanecendo como presidente.”

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Como o artigo assinala, simplesmente não é crível que o número de pessoas favoráveis à realização de novas eleições tenha caído de 62% para 3% nos últimos três meses; ou que o número de pessoas que querem que Temer termine o mandato de Dilma tenha saltado de 8% para 50%.

(Desde abril, o novo governo tem sido atingido por uma série de escândalos, envolvendo três ministros que se demitiram, e implicando o presidente interino Temer.)

Em vez disso, os resultados são, obviamente, impulsionado pelas escolhas limitadas oferecidas aos entrevistados.

“Cada meio de comunicação que repetiu este relatório falso e distorcido tem a responsabilidade jornalística de corrigir totalmente o registro e fornecer a seu público uma explicação sobre o que está errado com esta sondagem”, disse Weisbrot. “Fazer menos do que isso seria mais do que irresponsável.”

PS do Viomundo: O texto disseminado pelo CEPR aparentemente foi escrito antes da descoberta de um quadro omitido pela Folha (ver no topo) que torna a divulgação do Datafolha ainda mais embaraçosa.

Fonte: 62% dos brasileiros querem renúncia de Temer e novas eleições; dados distorcidos pela Folha merecem mais que “correção de costume”, diz entidade de Washington

Nosso curso de formação do “coxinha esclarecido” fez sucesso

CURSO PARA O COXINHA ESCLARECIDO

por Luiz Carlos Azenha, no Facebook do Viomundo, com revisão que implicou em acréscimos e ajustes

Agora que você conseguiu derrubar uma presidente da República com premissas e argumentos falsos, é hora de sofisticar sua capacidade de debate.

Não seja confundido com um mero seguidor do intelectual pornô Alexandre Frota. Pega mal na turma.

Você certamente é muito mais sofisticado que isso.

Provavelmente você é admirador dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, do Estado Mínimo, escrito assim em maiúsculas para denotar a centralidade deste item na pauta neoliberal.

Nunca confunda uma coisa com outra. Por mais que a Miriam Leitão sugira isso, os Estados Unidos não são um Estado Mínimo.

Palavra de quem morou lá duas décadas e tem duas filhas novaiorquinas (na verdade, de tripla nacionalidade, dentre as quais preferem a brasileira), com direito a tirar proveito do estado de bem estar social dos Estados Unidos.

Você costuma confundir estado de bem estar social com comunismo (como em Bolsa Família, médicos cubanos, etc.). Nos Estados Unidos, ele é resultado do anticomunismo.

Preste atenção: quem implantou o estado de bem estar social nos Estados Unidos foi o presidente Roosevelt. O país vinha do crash econômico de 1929. Depressão econômica. Os sindicatos eram fortes.

Para cooptar os sindicatos e evitar a ascensão dos comunistas, Roosevelt resolveu implantar programas sociais e salvar o capitalismo. Portanto, as coisas que ele bolou e implantou eram uma forma de combater o comunismo. Logo, anticomunistas.

Chamar o Roosevelt de comunista é tão absurdo quanto chamar o Lula ou a Dilma ou o PT de comunista. Eles são social democratas.

No Brasil, o partido que tem social e democratas no nome não é nem uma coisa, nem outra.

Voltemos aos Estados Unidos. Por mais que a partir daquele seu grande herói, o Reagan, os EUA tenham dilapidado o estado de bem estar social, os pilares deles subsistem: Social Security, Medicare, Medicaid e Food Stamps.

Pode chamar de Previdência Social, Bolsa Terceira Idade, Bolsa Plano de Saúde e Bolsa Família.

Essa ideia, de que o Estado deve ajudar a cuidar dos mais fodidos, é uma coisa antiga, que surgiu em outro país que você admira muito, a Alemanha. Mas não quero dar overload de informação no seu cérebro.

Basta você registrar isso: por causa dos programas sociais acima — e de outros fatos que apresentarei em seguida — os Estados Unidos não são um Estado Mínimo.

Pelo contrário, os EUA se assentam sobre um Megaestado, muito maior que o brasileiro.

Se você quer alguns exemplos de Estado Mínimo, eu os ofereço: México, Honduras e Paraguai, países que você certamente despreza e nunca utiliza como exemplo para reforçar seus argumentos.

Portanto, sempre que você falar em Estado Mínimo, esqueça os Estados Unidos e diga: “Devemos fazer como lá no Paraguai, que…”

Acrescente, em seguida, os argumentos pelos quais o Brasil deve seguir o mesmo caminho. A gente quer coxinhas sofisticados e intelectualmente honestos!

INTERVENCIONISMO ESTATAL

Caro amigo, você passou com louvor pela primeira aula. Para encarar a segunda, temos de voltar no tempo.

Vamos falar sobre intervencionismo estatal.

Anos 70. Você não tinha nascido. Eu estudava na Old Mill Senior High School, no condado de Glen Burnie, estado de Maryland. Fiz todas aquelas bobagens que você vê nos filmes de escola gringa, inclusive levar a linda Töve, estudante sueca, ao baile de formatura.

Meu pai americano era vendedor de seguros e trabalhava em Baltimore, cidade que visitei algumas vezes.

Os americanos, como a minha família, tinham se mudado em massa para loteamentos distantes, tipo Alphaville.

A indústria de base tinha abandonado o país em busca de salários mais baixos em outros lugares do mundo.

Sem a grana dos impostos, as áreas metropolitanas tinham entrado em decadência profunda: prédios abandonados, crime, tráfico de drogas.

É óbvio que você, que prega o Estado Mínimo, defenderia para este caso uma solução tocada pela mão invisível do mercado.

Se você condena o BNDES, bote um isordil sob a língua para encarar o que vou te contar.

Os governos americanos enfrentaram o problema despejando bilhões de dólares na recuperação dos centros urbanos, em dinheiro vivo ou deixando de cobrar impostos.

Funcionou mais ou menos assim: os governos reduziram os impostos para empresas que se instalassem em áreas degradadas.

Em alguns casos, exigiram que as empresas contratassem moradores locais.

Com salário garantido, os moradores financiavam apartamentos em prédios reformados com dinheiro público, tipo Minha Casa Minha Vida.

Que horror! Puro dirigismo estatal.

Baltimore ganhou um lindo shopping center bem na marina. Cleveland, Detroit… aconteceu o mesmo num grande número de cidades dos Estados Unidos.

Mais tarde, foi assim no Harlem e no Times Square, em Nova York.

Quando conheci o Harlem, em 1985, parecia um bairro recém bombardeado. Hoje você pode até ir àquela missa gospel recomendada pelos reaças do Manhattan Connection, também defensores do Estado Mínimo (para os outros).

E você que pensou que o intervencionismo estatal nos Estados Unidos fosse coisa da crise de 2008, quando o Obama salvou os bancos e a General Motors!

Portanto, quando você fizer o próximo selfie diante daquele teatro da rua 42, escreva na legenda: “Mamando nas tetas do Estado americano”.

O Lion King só passa lá por conta do intervencionismo estatal com dinheiro público.

MANIPULAÇÃO DO LIVRE MERCADO COM AJUDA BILIONÁRIA AOS MAIS RICOS

Chegamos ao último capítulo: manipulação do “livre mercado”, aquele pelo qual você tem uma admiração quase religiosa.

Sabemos que você abomina o Bolsa Família: distorce a livre competição por mão de obra no mercado de trabalho.

Note, no entanto, que este não é um “problema” exclusivamente brasileiro.

Na tão admirada América — é assim que você chama os Estados Unidos — o número de usuários da versão local do Bolsa Família, os Food Stamps, está próximo de 45 milhões de pessoas.

Sabe por que os Food Stamps sobrevivem na América? Não é apenas por causa da compaixão dos conservadores.

O programa é defendido pela indústria da alimentação! Há restrições ao que pode ser comprado com o cartão, que foca nos produtos da indústria local de alimentos processados. Assim, ela fatura uma enormidade com os pobres.

Portanto, quando o Lula falava que o Bolsa Família fazia girar o comércio e a indústria locais, não é que ele tinha razão?

Mas, na terra do suposto Estado Mínimo, os Food Stamps são um exemplo menor de como o dinheiro público ajuda os mais ricos.

Nem sempre beneficiando os mais pobres.

Você já pensou o que representam para a indústria farmacêutica as compras governamentais dos Estados Unidos?

Elas são tão importantes para os lucros das companhias que o Congresso, cedendo ao lobby das farmacêuticas, proibiu — em alguns casos — o governo de negociar diretamente com as empresas para baixar o preço das drogas oferecidas nos programas públicos.

O Estado Mínimo paga o Preço Máximo!

É uma baita distorção do Livre Mercado, que vai parar direto no bolso de companhia farmacêuticas trilionárias.

Como exemplo final, os subsídios da agricultura. Você sabia que a América gasta U$ 45 bi anuais para bancar o plantio de trigo, algodão, milho, soja e arroz?

Sabia que a grana fica principalmente com as grandes empresas do agribusiness, em vez de ajudar os agricultores mais pobres?

Você, que sempre protesta contra os subsídios da Lei Rouanet, deveria protestar contra o David Rockefeller: o bilionário levou meio milhão de dólares em subsídios agrícolas do Estado Mínimo!

Sabe as consequências do Bolsa Fazendeiro?

Mais pobreza na África e na América Latina, cujo potencial exportador fica comprometido pelo derrame de dólares em larga escala na produção agrícola da América — os europeus, aliás, fazem igualzinho.

Portanto, em sua próxima viagem a Miami, não esqueça de reservar um dia para protestar. Junte os amigos pelo Facebook.

Sugestão de faixas, direto do Google Translator: “Food Stamps is a factory of floaters”, “Rockefeller suckle the government teats”, “Military intervention already”.

Nosso curso de formação do “coxinha esclarecido” fez sucesso – http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/nosso-curso-de-formacao-do-coxinha-esclarecido-fez-sucesso.html

“Prévia do PIB” cai 5,5% em 12 meses. A crise é psicológica, Temer?

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Resultado pior do que o esperado, que já era ruim.

Queda de 4,91% do Índice de Atividade Econômica do Banco Central na série sem ajuste e de 5,32% com ajuste, em maio.

Em 12 meses,  baixa de 5,43% no índice bruto  e recuo  de 5,51% no ajustado, naquele que é considerado uma “prévia do PIB”.

Nos 12 meses encerrados em dezembro passado, as quedas acumuladas foram de 4,08% e 4,11%, respectivamente.

O gráfico aí em cima é autoexplicativo.

Senão no mercado especulativo, não há qualquer sinal de recuperação da atividade econômica.

Todos os dados divulgados em relação a junho vieram em nova queda.

Não há qualquer política contra este ciclo que possa ser apontada como alavanca de mudança.

Política de juros que dispensa comentários; zero de investimentos públicos em infraestrutura; empresas capazes  de gerar atividade rápida e emprego intensivo, na área de construção civil virtualmente paralisadas. Mesmo nas dedicadas a obras imobiliárias, o dado divulgado hoje, de queda de 50% na venda de imóveis em São Paulo é mais do que demonstrativo da queda de atividade.

Outro dia, numa “brilhante” dissertação sobre economia, o presidente em exercício disse que a crise é “psicológica”.

Espera-se que Michel Temer tenha, então, a “clarividência” de observar que sair dela também tem este componente.

Mas, em economia, decisões têm a ver com rumos.

Venda de patrimônio agrega receita pública, não atividade econômica.

Arrocho nos aposentados e no salário mínimo, redução de gastos em educação e saúde geram alívio fiscal (e assim mesmo em alívio no “rombo”) mas não geram consumo, compras, produção, postos de trabalho.

Esperar que a melhoria das condições internacionais nos ajude é fazer uma oração ao imponderável.

O “Deus Mercado”, em geral, é diabólico.

Fonte: “Prévia do PIB” cai 5,5% em 12 meses. A crise é psicológica, Temer?

Feliz 2027, 10 anos após o fim da CLT

“Precários nos querem, rebeldes nos terão” (autor desconhecido).

Brasil, 2027. Já se passaram mais de dez anos desde que sepultamos precarizamos os direitos trabalhistas nesse país de tamanho continental e de graves desigualdades regionais. Estávamos absolutamente certos de que era o melhor a ser feito. Na época, a crise econômica era grave e não havia outra solução: o desemprego era grande e só aumentava, mês após mês, tampouco tínhamos qualquer expectativa de melhora. O “pato” chegou à conclusão de que a culpa de tudo isso era do direito do trabalho, da “velha CLT” e daquela “justiçazinha atrevida” que se dizia “especializada” e ousava se postar corajosamente em defesa dos chamados “direitos sociais”. Ah, é claro… havia uma Constituição rígida que dificultava a retirada desses direitos ditos “fundamentais”. Mas ela já não valia mais nada, era um sonho que nunca vingou, um espectro a nos iludir, um pedaço de papel que ninguém conhecia. Estava lá e não estava lá. Importava menos do que uma lei ordinária qualquer, muito menos do que um acordo coletivo. Nós dizíamos que a “liberdade” de contratação libertava o indivíduo e revelava a sua plena autonomia nas relações sociais e jurídicas. Acho que esse era o “espírito” da época. Na verdade, nem consigo lembrar direito como retiramos todo o direito do trabalho ou driblamos a Constituição Federal. Não sei se foi aos poucos, não sei se foi com uma ruptura abrupta ou se foi um golpe. Mas não importa. Conseguimos, enfim.

Mas algo deu errado. Nesse tempo, vimos surgir bancos sem bancários, hospitais sem médicos, escolas sem professores, companhias aéreas sem pilotos/comandantes, empresas sem empregados, fazendas sem trabalhadores rurais, Estado sem funcionalismo público. Após sucessivas reformas, acompanhamos inertes a Previdência Social ser reduzida ao mínimo existencial. A educação e a saúde pública foram privatizadas. O salário dos trabalhadores baixou a um nível indecente por conta da precarização sem limites. Crianças e adolescentes voltaram a trabalhar para complementar a renda da família. No campo, se trabalhava apenas por comida e teto. Os pobres se tornaram miseráveis, desfalecidos. Depois, assustados, vimos a classe média despencar para o fundo do abismo e o consumo de bens e serviços cair vertiginosamente. O emprego foi reduzido a nada.

Fizemos de tudo e a crise econômica não diminuiu, só aprofundou. Trabalhadores e pequenos empresários acabaram sendo triturados diante da investida do capitalismo selvagem do tipo “walmartismo”[1] praticado por grandes empresas multinacionais. A era da precarização tinha chegado ao fim. Iniciava-se outra.

Nesse período, o aparato policial do Estado aumentou assustadoramente, a segurança privada ganhou espaço significativo, milícias foram legalizadas, leis penais mais rígidas foram aprovadas no Congresso, processos criminais ganharam prioridade de julgamento, o devido processo legal foi mitigado, advogados perseguidos, prisões foram construídas e privatizadas e o controle social da população se tornou necessário para impedir a desordem e garantir o progresso do país. Vigilância em nossas ruas e avenidas, drones, policiais-robôs. Ainda assim, aplaudíamos.

Apesar de tudo isso, a violência continuou a aumentar significativamente: furtos, roubos, contravenções, drogas, intolerância, atentados, revoltas, tumultos, crimes cibernéticos. A situação era caótica nas cidades e no campo. Tudo parecia estar fora de controle. O desespero tomava conta da sociedade, pois não havia crescimento econômico, a crise se agravava e grande parte da população brasileira passava fome como outrora. Então, quando festejamos a retirada completa de direitos fundamentais as reformas trabalhistas pensando que avançaríamos, na verdade, acabamos retrocedendo mais de um século em nossas relações sociais. Nesse contexto desesperador, outro espectro há muito desaparecido rondava o Brasil de 2027. E ele parecia incontrolável.

Foi aí que começamos a indagar: “onde erramos?”

Átila Da Rold Roesler é juiz do trabalho na 4ª Região e membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD).

[1] A expressão é de Pietro Basso, utilizada no artigo “O walmartismo no trabalho no início do século XXI”. Revista Margem Esquerda n. 18, Boitempo Editorial, 2012, p. 25.

Fonte: Justificando.com