O impacto das delações na imagem do Brasil, por André Araújo

Por André Araújo
AS DELAÇÕES ESTÃO DESTRUINDO A IMAGEM DO BRASIL
Grandes empresas da China aos Estados Unidos estão desistindo de investir no Brasil por causa das últimas notícias de corrupção que envolvem toda a classe política brasileira, tornando o Brasil país de altíssimo risco político pela impossibilidade de prever o futuro.
Negócios que estavam se encaminhando para compra de ativos no setor de energia tiveram desistência na última semana em função de novas delações que saem com abundância de detalhes na mídia brasileira. Se os ativos forem então de empresas envolvidas nas delações, os potenciais compradores não querem nem de graça. Empreiteiras que tentam vender ativos e ligam para bancos estrangeiros para intermediar a transação não tem sequer o retorno da ligação, tornaram-se empresas em lista negra.
Para piorar o quadro, perdeu-se ultimamente a referência de valores, uma citação de propina de 300 mil reais passa a ter na mídia o mesmo tratamento de uma propina de R$ 60 milhões, desapareceu a ideia de proporção, de consistência, de escala, alguém pediu para outro uma doação de R$ 200 mil para campanha e isso passa a ser tão grave como uma conta de 100 milhões de propinas na Suíça, alguém denunciado por um pedido de 150 mil pega 23 anos de prisão e outro que, em onze anos acumulou 300 milhões de Euros, pega prisão domiciliar com direito a Padre a domicílio e casa com piscina ao lado de quadra esportiva, e posa para fotos com aparência de amigo da investigação.
Causa real estranheza um alto personagem da vida política nacional, como é o procurador-geral da República, não dar a mínima importância às consequências para a governabilidade pelo “timing” de suas ações, como se o ato de pedir a prisão de políticos eleitos com especial posição de comando em  poderes da República fosse algo neutro, como se os desdobramentos desses atos não tivessem reverberações dramáticas nas intrincadas negociações para manter o governo funcionando em um mar turbulento de incertezas.
Espera-se do chefe de um quarto Poder de fato pensar no que acontecerá com os outros Poderes a partir de suas ações que não se aplicam ao planeta Marte, e sim ao núcleo de comando de seu País, a governabilidade afeta o total da população e o funcionamento do Estado, diz respeito à toda a sociedade e não apenas a corporações com suas próprias agendas que muitas vezes perdem a referência da macro política, o barco é um só e nele estão todos os poderes, se o barco afunda todos vão para o abismo. O Brasil vai se tornar um dos lugares “malditos” para investidores estrangeiros, aprofundando a recessão, estamos nos autoflagelando como em nenhum outro País na memória recente fez.
Pior que as delações são os vazamentos das delações, algo que NÃO faz parte desse instrumento inventado nos Estados Unidos. Lá a delação é um segredo completamente guardado até para a proteção do delator, aqui o vazamento é usado como arma de luta pelo poder. O Brasil está enlouquecendo na caça às bruxas em um processo que lembra a caça aos comunistas pela Comissão Mc Carthy nos EUA da década de 50, e que envenenou a política americana por vários anos e teve efeitos traumáticos por décadas à frente.
DELAÇÃO PREMIADA, A CORROSÃO DO CARÁTER
Desde os primórdios das sociedades organizadas o princípio da lealdade e da confiança é a base das estruturas políticas em todas as culturas, da Ásia à Europa passando pela África, seja qual for o tipo de regime, não importa a qualidade do governo, só se pode governar se é possível confiar, sem confiança nem exércitos lutam, até entre os animais irracionais há hierarquias de poder e comando baseadas em alianças e colaboração. As comunidades se organizam em torno de um chefe e este depende da lealdade dos subordinados sem a qual é impossivel governar. A quebra dos princípios de lealdade cria a figura da TRAIÇÃO, pecado da mais alta gravidade, punido em todas as culturas com penas gravíssimas.
Interessante é que, entre todas as culturas de todas as latitudes, há enorme variação de modos e costumes, mas o tratamento que se dá à traição é uniforme, seja entre índios, russos, árabes, etnias africanas, povos do continente indiano, asiáticos, em todas as culturas e no espaço da história conhecida, a traição é inadmissível porque quebra um vínculo fundamental para a  organização dos governos.
O delator é por definição um traidor, pois ele rompe o elo de lealdade que é indispensável à cadeia de transmissão de ordens para o funcionamento da máquina do Estado. Traidores são marcados a ferro na História séculos depois do ato da traição, figuras como Domingos Calabar e Joaquim Silvério dos Reis jamais apagarão seus registros históricos, tivessem ou não bons motivos para trair, o motivo  da traição é irrelevante.
No caso das recentes delações no Brasil há um segundo fator que não faz parte do instituto da delação que vem dos Estados Unidos, é a quebra do sigilo e sua completa divulgação horas ou dias depois da delação ser oferecida.
No sistema americano protege-se inclusive a identidade do delator, aqui a delação é escrachada e usada como arma na luta pelo poder e quem vaza a delação não dá a mínima importância às consequências devastadoras que o vazamento produz nos seus desdobramentos políticos que podem ser terríveis e traumáticos. Mais ainda, assim que uma delação é vazada, antes de homologada e muito menos comprovada, a mídia, de propósito, mistura “citados”, o que pouco ou nada significa, com “investigados” e “denunciados”, graduações fundamentais mas que o grande público ignora, assim um simples “citado” passa a ser visto como alguém comprovadamente culpado.
No caso brasileiro há outro agravante, a quantidade simultânea de grande número de delações, algo inusitado nos países onde esse instrumento e  usado com parcimônia e se presta especialmente a casos muito graves, de terrorismo e  tráfico de drogas. O uso indiscriminado de forma torrencial, como no Brasil, é inédito, e somado aos vazamentos provoca turbulências no sistema político que tem um alto custo colateral na governabilidade do Estado.
Troca em série de Ministros impedem o planejamento e a coordenação de ações de governo, algo que tem um elevado custo no funcionamento da máquina pública e os prejuízos podem ser maiores do que os alvos que se pretendem atingir com as delações.
Um País com governo errático ou desestruturado perde em eficiência e operacionalidade, e essa perda pode resultar em custos imensos em queda do PIB, em investimentos adiados, em não implantação de políticas essenciais, na não realização de projetos já definidos.
Os processos que resultam em delações precisam ser controlados e não podem virar um faroeste de tiros para todo lado, porque ao fim é o País no seu conjunto que perde.
Nos Estados Unidos o instituto jurídico da delação (o delator é o “whistleblower” em várias modalidades, inclusive o que recebe dinheiro para delatar) não abala a política, as instituições são muito mais sólidas que as nossas, a Constituição tem 240 anos e a legislação eleitoral permite doações de empresas desde que declaradas, e há um truque em doações para causas através dos Political Actions Committees-PAC que não deveria ser para campanha mas são e todo mundo finge que não sabe. Eles dão aula de moral e ética para o mundo e lá moral e ética é o que menos tem. A política americana tem séculos de podridão acumulada, mas eles são menos hipócritas e mais práticos, se não dá para mudar basta declarar e fica limpo.
A corrupção política só pode ser diminuída com radicais mudanças no sistema partidário e no modelo eleitoral e isso não está sendo sequer iniciado. Ao contrário, invés de seguir o método americano de contribuições  por pessoas jurídicas MAS sempre declaradas, fizemos o contrário, proibimos as contribuições legais das pessoas jurídicas, o que, sem a mudança do sistema político, fará os candidatos dependerem de caixa 2, algo que as empresas organizadas não conseguem produzir em  escala, mas que negócios marginais tem facilidade, como tráfico de drogas, contrabando, milícias, etc.
Não se entende a lógica da proibição do financiamento declarado de campanhas por pessoas jurídicas, o que empurra as campanhas para a clandestinidade financeira, exatamente ao contrário do que pede um sistema político transparente e aberto, cria-se um irrealismo que fará os políticos encontrarem caminhos piores do que os de hoje.
Mas o elemento mais grave para impedir a governabilidade e destroçar a economia é a imprevisibilidade do cenário político, causada pelas operações anti-corrupção. Trata-se aqui de um prejuízo equivalente ao de uma guerra civil, onde não se sabe o resultado final e que, por isso mesmo, paralisa a economia de um País. A previsibilidade é fator fundamental para atrair investimentos, ninguém investe em um País onde não se sabe quem o vai comandar na próxima semana. O Brasil parece não perceber esses efeitos colaterais que extrapolam muito além das próprias ações jurídico-policiais-midiáticas que embasam a cruzada moralista.

Fonte: O impacto das delações na imagem do Brasil, por André Araújo | GGN

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